As pragas - Comentário LES
Êxodo 9:35
Quando analisamos a narrativa que descreve a intervenção divina no empreendimento de libertação dos hebreus com o viés bíblico, tendemos a colocar em relevo somente o desejo divino de libertação em oposição a resistência do rei do Egito em não deixar que o povo fosse libertado. No entanto, outros fatores estavam envolvidos nessa disputa. Pode-se destacar entre estes fatores os aspectos sociais como a participação dos hebreus na sociedade egípcia. O aspecto militar, uma vez que o Egito havia se tornado uma grande e poderosa nação com a presença do povo que nela vivia. O aspecto econômico, uma vez que o pais em muito dependia da participação econômica e da força de trabalho oferecido pelos escravos hebreus. O aspecto religioso, uma vez que deste a revelação do Deus de Israel, a hegemonia religiosa da nação foi abalada, etc. E, dentre os aspectos anteriormente apresentados, a soma de todos, com destaque para o último, torna o pedido de Deus ao rei uma disputa pessoal. Ao ser mencionado no texto que o rei "de coração endurecido", não deixou ir os filhos de Israel (cf. Êxodo 9:35), o verbo hebraico é "chazaq", traduzido como "endureceu". No entanto, também se aplica a ideia de "ser forte" e, pode também, ser aplicado, figurativamente a ideia de "ser corajoso". Isso implica dizer que na mente do rei, ceder ao pedido divino seria uma demonstração de fraqueza e medo (falta de coragem). Logo, diante do imperativo divino, o rei decidiu medir forças com o próprio Senhor. Embora a narrativa tome contornos de uma disputa meramente militar, pois envolve duas nações: o rei divino contra o reino egípcio, o relato precisa ser analisado levando em consideração uma dramática história de redenção. Pois é neste cenário e contexto que será revelado a luta divina para convencer e converter um único coração: o de Faraó. É nessa perspectiva que o que o rei vê como demonstração de força e coragem, Deus vê como uma oportunidade de revelação de seu próprio caráter por meio da manifestação de sua graça. Logo, as "pragas", são mais do que manifestações de juízo e punição, são antes de tudo, sinais da graça amorosa de Deus, que insiste por converter o coração endurecido do rei em um coração sensível ao convite de Deus.
Objetivo: As intervenções divinas tinham como objetivo chamar a atenção do rei para a graça de Deus.
A. Deus versus deuses - A bíblia é enfática em destacar a nulidade dos ídolos. Ao mesmo tempo, deixa claro que ídolos são imagens sem vida que não podem interagir ou se relacionar com seus adoradores. Logo, ter uma imagem como deus, é considerado pela bíblia, um ato de loucura humano.
- Mas o que dizer de um rei que se considera um deus.
- Esse era o status do rei do Egito.
- Essa realidade faz com que o embate pela libertação dos hebreus se3 torne uma batalha entre deuses.
- De um lado o rei e, do outro o Deus Criador.
- Quando a vara de Arão se torna em serpente e devora as duas outras serpentes a cena é realmente uma representação da batalha entre o Deus vivo e um deus egípcio.
- Isso porque o deus-serpente Nehebkau (aquele que controla os espíritos), segundo a mitologia local tinha grande poder por ter engolido sete serpentes.
- Assim, uma vez que a serpente de Deus devorou as serpentes egípcias, Deus estava deixando claro que Ele venceria o Egito.
B. Quem endureceu o coração do Faraó? - O texto bíblico pode no ajudar a melhor esclarecer essa questão a partir do momento que encontramos nove vezes o livro mencionar que Deus endureceu o coração do rei e, nove vezes o livro menciona que o próprio rei endureceu o seu coração.
- O que isso significa?
- Significa que:
- As ações de Deus (seu pedido por libertação), ao invés de converter o coração do rei fez com que ele mais e mais se mantivesse obstinado a desobedecer e não atender o pedido e;
- Uma vez que o desejo do rei não era atender o pedido, cada vez que o Senhor o punia, mais e mais ele decidiu resistir e sofrer as consequências.
- A partir do momento que Deus compreendeu que o rei, de fato, não atenderia o pedido e resistiria as oportunidades oferecidas, Deus o deixou a própria sorte.
- Isso reforça o fato de que as ações de Deus (pragas) tinham como objetivo convencer o rei a aceitar a vontade de Deus e não simplesmente punir a nação.
- As revelações apocalípticas apresentadas por Deus á João, o evangelista na ilha de Patmos, revelam, no capítulo 3 que o Senhor está a porta e bate, caso alguém o ouça, ele entrará.
- O mesmo ocorreu com o rei do Egito, o Senhor estava a porta a bater, mas o rei resistiu, não permitindo a ação transformadora de Deus.
C. As três primeiras pragas - Devemos destacar que a princípio as pragas não foram direcionadas ao povo, mas sim aos deuses egípcios.
- A primeira, contra Hapi, o deus do Nilo.
- A ideia básica era afetar não somente o abastecimento de água que supria o reino mas também a alimentação. Uma vez que o reino dependia do rio.
- O Nilo que, no passado, havia tingido suas águas com o sangue dos meninos hebreus condenados pelo decreto de morte. Agora, sangra, convertendo suas águas, mais uma vez em sangue, pelo decreto pronunciado por Deus.
- A segunda, contra a deusa-rã, Heqet. Em vez de alimento o rio produziu rãs que os egípcios odiavam.
- A terceira, contra Gebe, o deus da terra e esta produziu mosquitos, carrapatos ou piolhos.
- Fato que os magos não puderam imitar, visto que criar, é uma atribuição somente de Deus.
D. Moscas, gado e úlceras - As pragas que se seguiram atingiram outros seis deuses locais.
- A quarta, foi contra a deusa Uatchit, deusa das moscas e senhora dos pântanos e brejos. O deus Khepri, associado ao sol nascente, á criação e ao renascimento, representado por uma cabeça de besouro.
- A quinta, foi contra Hator, deusa da proteção e do amor, representada por uma cabeça de vaca. essa praga atingiu o gado. Além do deus touro Ápis.
- A sexta, foi contra os deuses Ísis, deusa da medicina, magia e sabedoria, bem como contra Sequemete, deusa da guerra e das epidemias. E, Imodep, deus da medicina e cura.
- Ponto importante a ser destacado é que a partir da terceira praga (4° á 10°), os hebreus não foram mais alcançados, nem sofreram dano algum. A partir deste momento, Deus fez separação entre o seu povo e os egípcios que não aceitaram a vontade de Deus (cf. Êxodo 8:20-24).
- Informação importante para compreender a dinâmica das sete últimas pragas enviadas em Apocalipse.
E. Granizo, gafanhoto e escuridão - Nut era a deusa da atmosfera e do espaço, aquela que controlava o céu e a terra. Contudo, não pode controlar as ações divinas.
- A sétima foi contra Osíris, o deus das colheitas e da agricultura.
- A oitava foi contra Set, deus da tempestade, Shu, deus da atmosfera e Serápis, deus da fertilidade cura e vida após a morte.
- E a nona, foi contra Rá, o principal, deus sol, e Tote deus da lua. Eles não conseguiram vencer a escuridão.
- Ao prever o envio do granizo Deus estendeu a todos a oportunidade de não serem atingidos ou mesmo não terem suas criações destruídas pela praga. Todos aqueles que ouviram e obedeceram a palavra de Deus, não sofreram dano algum.
- Um fato importante a destacar é que após a sexta praga o rei assumiu que havia errado contra o Deus do céu. No entanto, persistiu no erro e não obedeceu aos apelos divinos.
Destaque:
A. Deus já havia previsto a resposta do rei frente ao pedido divino. Isso de modo algum revela que Deus endureceu o coração do rei com o intuito de punir a nação. Pelo contrário, isso revela que Deus conhecia seu caráter e sabia que o rei não se renderia a vontade divina. No entanto, Deus continuou apelando. Cada uma das "pragas" enviadas contra o reino devem ser analisadas não como uma punição ao rei ou ao povo, mas sim contra os deus do Egito. No entanto, se nos apegamos a idolatria e a desobediência a vontade de Deus, ao punir e erradicar o erro e o pecado, aqueles que não ouvem a voz de Deus e se mantem na pratica do pecado, serão feridos pelas ações divinas. Assim, noutras palavras, enquanto Deus punia a idolatria egípcia, fez o que pude para converter e salvar o rei e, por consequência, a nação. Demonstração da graça salvadora de Deus.
B. A partir da quarta praga o rei iniciou um processo de barganha com Deus. Seu objetivo era oferecer ao povo a oportunidade de adorar o Senhor, mas em território egípcio. Esse não era o objetivo divino, pelo contrário, o Senhor exigia que o povo se afastasse do reino a fim de adorar no deserto, num local isento da influência pagã presente no rei. A negativa divina nos ensina que em se tratando de adoração, não há barganha nem concessões.
Aplicação:
A. Deus pune pecado, com o desejo sincero de salvar o pecador. Nesse sentindo, as "pragas" são mais do que atos de punição, são sinais e atos de revelação da graça de Deus.
Pr. Vítor de Oliveira Ribeiro - Jaíba- MMN - USeB
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